Medo de falhar: o preço de nunca se permitir errar
Será que só você tem medo de falhar?
Não estou falando do medo simples de errar ou de tentar algo novo e não funcionar, mas daquele medo mais profundo e silencioso de se afastar da personagem construída ao longo do tempo: a imagem de quem dá conta, resolve, sustenta e não vacila, mesmo quando tudo já está pesado demais.
Em muitos momentos, falhar não parece apenas um erro pontual, mas uma ameaça à própria capacidade profissional, como se um deslize fosse suficiente para apagar anos de entrega, competência e reconhecimento. Esse medo tende a crescer especialmente em contextos nos quais é preciso ser confiável o tempo todo, e onde errar nunca é visto como parte do processo, mas como sinal de fragilidade ou despreparo.
Estudos voltados à mensuração do estresse ocupacional crônico indicam que ambientes marcados por alta exigência e baixa margem para erro favorecem estados persistentes de tensão emocional e autocobrança elevada. Quando errar se torna inaceitável, corpo e mente entram em estado permanente de vigilância, tentando antecipar riscos, prever cenários e evitar qualquer possibilidade de falha. Esse esforço contínuo consome energia psíquica de forma significativa, reduzindo a capacidade de descanso e limitando o espaço para aprendizado, adaptação e criação.
Com o tempo, o medo de falhar deixa de proteger e passa a aprisionar. As decisões se tornam mais difíceis, delegar parece arriscado, descansar gera culpa e qualquer imprevisto é vivido como sinal de que algo saiu completamente do controle. Pesquisas em saúde mental no trabalho mostram que esse padrão de hiper exigência está associado a níveis mais elevados de estresse, esgotamento emocional e sensação crônica de insuficiência, mesmo entre pessoas altamente competentes. Estudos clássicos sobre burnout, como os desenvolvidos por Christina Maslach, apontam que a combinação entre ideal de desempenho elevado, medo de falhar e dificuldade de reconhecer os próprios limites constitui um dos principais fatores de risco para o adoecimento emocional.
Para muitas mulheres em posições de liderança, esse medo tende a se intensificar. A exigência constante de provar valor, de não errar e de sustentar múltiplas responsabilidades reduz ainda mais a margem para imperfeição. O erro deixa de ser um evento pontual e passa a ser vivido como risco de perda de credibilidade, de espaço ou de reconhecimento, alimentando ciclos de rigidez, autocontrole excessivo e autocobrança.
Reconhecer limites e aceitar imperfeições não enfraquece a liderança nem diminui a responsabilidade, pelo contrário; estudos sobre segurança psicológica em equipes, como os conduzidos por Amy Edmondson, demonstram que contextos nos quais o erro pode ser nomeado, discutido e elaborado favorecem aprendizado, cooperação e maior sustentabilidade emocional no trabalho. Ambientes que tratam o erro como possibilidade de reflexão e ajuste, e não como falha moral ou incompetência, tendem a ser mais saudáveis e menos adoecedores.
Cuidar da saúde mental passa, muitas vezes, por revisar a relação com a falha, reconhecendo que o controle absoluto não existe e que sustentar tudo sozinha, sem margem para errar, cobra um preço alto demais ao longo do tempo.
Na Síncrona, apoiamos lideranças e equipes no manejo da ansiedade e na construção de formas mais saudáveis de lidar com exigência, controle e medo de falhar, sempre a partir de uma perspectiva baseada em evidências e alinhada à realidade e necessidade de nossos clientes.
Se você quer aprofundar esse cuidado no dia a dia da sua empresa, conhecer os programas da Síncrona pode ser um primeiro passo para tornar o trabalho mais possível e humano.
Referências:
Karasek, R., & Theorell, T. (1990).
Healthy work: Stress, productivity, and the reconstruction of working life.
Bakker, A. B., & Demerouti, E. (2007).
The Job Demands–Resources model: State of the art.
Journal of Managerial Psychology.
Maslach, C., Schaufeli, W. B., & Leiter, M. P. (2001).
Job burnout. Annual Review of Psychology.
Edmondson, A. (1999).
Psychological safety and learning behavior in work teams.
Administrative Science Quarterly.

