Honestidade emocional também é estratégia de liderança.

SHonestidade emocional também é estratégia de liderança

Durante muito tempo, o imaginário corporativo associou liderança a controle, previsibilidade e uma espécie de blindagem emocional, como se demonstrar dúvidas, limites ou ambivalências colocasse em risco a autoridade e a capacidade de decisão. Na prática cotidiana das organizações, no entanto, o que se observa são lideranças sobrecarregadas, equipes operando no limite e um esforço constante para sustentar níveis de performance que desconsideram a complexidade emocional do trabalho contemporâneo, o que ajuda a explicar, por exemplo, a queda global de engajamento apontada em relatórios recentes sobre o mundo do trabalho (Gallup, State of the Global Workplace).

Nesse contexto, a honestidade emocional deixa de ser um gesto individual ou uma habilidade desejável e passa a ocupar o lugar de uma estratégia organizacional, especialmente porque ignorar o impacto emocional das decisões, dos ritmos e das metas tem se mostrado um risco crescente para a saúde mental no trabalho. O reconhecimento do burnout como fenômeno ocupacional pela Organização Mundial da Saúde reforça que o adoecimento não pode ser tratado apenas como fragilidade individual, mas como resultado de ambientes que sistematicamente silenciam limites e tensões (OMS).

Ser emocionalmente honesto na liderança não significa expor tudo o que se sente, nem transformar o ambiente de trabalho em um espaço de descarga emocional sem critério. Trata-se, sobretudo, de reconhecer o que está de fato em jogo nas relações, nas decisões e nas prioridades, nomeando tensões, admitindo incertezas e alinhando discurso e prática. Quando esse alinhamento não acontece, instala-se um ruído silencioso que mina a confiança, aumenta a ansiedade coletiva e eleva os riscos psicossociais, ainda que os indicadores tradicionais de desempenho não apontem problemas imediatos.

Lideranças que se mantêm presas a uma imagem permanente de segurança e respostas prontas costumam gerar o efeito inverso ao esperado, porque as pessoas percebem quando o clima está pesado, quando mudanças são impostas sem explicação ou quando metas se acumulam enquanto os recursos emocionais se esgotam. Esse desencontro entre o que se vive e o que se comunica consome energia psíquica, favorece o cinismo organizacional e dificulta a construção de vínculos de confiança, que são fundamentais para o engajamento sustentável.

Estudos sobre segurança psicológica mostram que ambientes nos quais líderes conseguem reconhecer limites, abrir espaço para dúvidas e legitimar conversas difíceis tendem a aprender mais com os próprios erros, a inovar com mais consistência e a tomar decisões mais realistas ao longo do tempo, justamente porque as pessoas não precisam gastar energia se protegendo emocionalmente (Edmondson, The Fearless Organization). Não se trata de tornar o trabalho mais confortável, mas de criar condições para lidar melhor com a complexidade e com o erro, sem recorrer à culpa ou ao silêncio defensivo.

Para áreas de RH e lideranças em posições estratégicas, a honestidade emocional também ajuda a desmontar a lógica de que é preciso dar conta de tudo sozinho. Ao explicitar limites, compartilhar critérios e contextualizar decisões, a liderança distribui responsabilidade e reduz a sobrecarga individual, sem perder direção ou autoridade, criando ambientes mais previsíveis do ponto de vista relacional e menos adoecedores no cotidiano.

No cenário atual, fingir neutralidade emocional se tornou um risco organizacional relevante, pois a queda de engajamento, o aumento de afastamentos por adoecimento emocional e a sensação generalizada de esgotamento indicam que culturas que ignoram o impacto emocional da gestão acabam pagando esse custo em rotatividade, perda de produtividade e fragilização dos vínculos com o trabalho (Gallup; OMS).

Entender a honestidade emocional como estratégia implica investir em práticas que parecem simples, mas exigem consistência e suporte institucional, como comunicar más notícias com respeito e contexto, reconhecer quando uma decisão não produziu o efeito esperado, revisar rotas sem recorrer à culpabilização e escutar de forma genuína o que emerge das equipes, inclusive quando isso provoca desconforto. Nada disso se sustenta sem preparo, reflexão e espaços coletivos de elaboração, especialmente para quem ocupa posições de liderança.

Na Síncrona, esse entendimento se traduz em um programa estruturado de desenvolvimento de lideranças, que apoia gestores na construção de clareza emocional, maturidade relacional e tomada de decisão consciente em contextos complexos. O programa articula saúde mental, estratégia e prática cotidiana, ajudando lideranças a reconhecer riscos psicossociais, sustentar conversas difíceis, reorganizar prioridades e criar ambientes emocionalmente mais saudáveis sem abrir mão da performance e da responsabilidade pelos resultados.

Também é fundamental diferenciar honestidade emocional de permissividade ou ausência de responsabilidade. Ao contrário, quando há clareza emocional, expectativas ficam mais nítidas, acordos se tornam mais sustentáveis e as pessoas conseguem direcionar energia para o que realmente importa, com menos desgaste e mais sentido. Trata-se de uma liderança que não romantiza o sofrimento, mas também não o silencia.

Liderar com honestidade emocional não é sobre sentir menos, mas sobre reconhecer o que é real para decidir melhor, com mais responsabilidade, mais lucidez e menos adoecimento ao longo do caminho.

Referências

  • Edmondson, A. The Fearless Organization. Harvard Business Review Press.

  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Burnout como fenômeno ocupacional.

  • Gallup. State of the Global Workplace Report.

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