Quebra narcísica: quando aceitar limites dói, mas liberta

Eu sei que você tem muita coisa para fazer, e quando dá conta de tudo, mesmo exausta, mesmo passando do próprio limite, aparece um prazerzinho silencioso lá no fundo, quase como um chefe interno que te reconhece, te dá um tapinha nas costas e sussurra que você é boa, competente, diferente. O problema é que esse mesmo chefe também pode ser cruel quando alguma demanda escapa, quando algo atrasa, quando você falha em sustentar tudo, afinal, você foi programada para dar conta de tudo, para não deixar cair, para não precisar de ninguém.

Mas aqui vai um segredo que costuma incomodar quem ouve: você não é tão boa assim. E é exatamente aqui que acontece a quebra narcísica.

Não se trata de um ataque à sua competência, mas do encontro com um limite estrutural, porque você não tem superpoderes, não é insubstituível, não é o centro do sistema, e embora isso machuque o ideal que construímos sobre nós mesmos, também pode ser profundamente libertador. A dor não vem do limite em si, mas da queda da fantasia de que, se tentarmos um pouco mais, se nos organizarmos melhor, se formos mais fortes emocionalmente, daremos conta de tudo.

A psicanálise já nomeou esse ponto há décadas, quando Freud falava da ferida narcísica como a experiência de reconhecer que não somos tão centrais, tão especiais ou tão potentes quanto gostaríamos de acreditar. No mundo do trabalho contemporâneo, essa ferida ganha novos contornos, porque fomos educados a acreditar que desempenho, esforço e inteligência seriam suficientes para sustentar qualquer demanda, bastaria resiliência, foco e boa vontade, mas não são.

A dor aparece porque o narcisismo não é apenas vaidade, ele também funciona como defesa. A fantasia de que damos conta de tudo nos protege do medo de falhar, de decepcionar, de perder valor e de sermos vistos como comuns demais. Quando essa fantasia cai, o que surge é angústia, culpa e, muitas vezes, vergonha, sentimentos especialmente intensos em posições de liderança, já que líderes foram socialmente treinados a sustentar, decidir, cuidar e performar ao mesmo tempo, como se pedir ajuda, negociar limites ou admitir cansaço fosse sinal de incompetência.

O problema é que insistir nessa ilusão cobra um preço alto. Dados da Organização Mundial da Saúde já apontam o esgotamento como um fenômeno relacionado a condições crônicas de trabalho mal geridas, e não a fragilidades individuais, mas ainda assim o discurso dominante continua empurrando a responsabilidade para o sujeito, como se bastasse melhorar a gestão do tempo ou fortalecer a mente para não adoecer dentro de estruturas adoecedoras.

É nesse ponto que a quebra narcísica deixa de ser apenas uma experiência dolorosa e se torna uma oportunidade ética e política. Reconhecer limites não significa desistir da responsabilidade, mas recolocá-la em bases mais reais, menos violentas e mais coletivas. Você é mais um no mundo, sim, e isso não te diminui, pelo contrário, isso te humaniza, te devolve à possibilidade de dividir, priorizar, escolher e, sobretudo, dizer não sem colapsar por dentro.

Quando um líder aceita que não dá conta de tudo, ele abre espaço para construir ambientes mais honestos, nos quais o cuidado não é apenas discurso e a performance não depende do sacrifício silencioso de alguém que aguenta mais do que deveria. Ele sai da lógica heroica, tão valorizada nas empresas, e entra numa lógica sustentável, que reconhece que pessoas adoecem quando são tratadas como exceção permanente.

A libertação não vem no momento em que você prova que é capaz de tudo, mas quando aceita que não precisa ser. Esse reconhecimento não elimina o desconforto, mas reduz a violência interna que faz tantos profissionais se cobrarem até o limite do adoecimento, acreditando que o problema está neles, quando muitas vezes está na forma como o trabalho foi organizado.

Talvez a pergunta mais importante não seja como dar conta de tudo, mas por que seguimos acreditando que deveríamos.

Na Síncrona, partimos exatamente desse ponto. Trabalhamos com lideranças que já perceberam que repetir discursos sobre cuidado não é suficiente, e que aprender a sustentar conversas difíceis, reconhecer limites, redistribuir responsabilidades e trazer mais humanidade para as relações de trabalho não diminui resultados, pelo contrário, torna o trabalho mais possível. Nosso programa para lideranças foi criado para apoiar esse movimento, ajudando líderes a lidar com riscos psicossociais, a identificar sinais de esgotamento nas equipes e a construir ambientes emocionalmente mais saudáveis, sem abrir mão de performance, mas abandonando a fantasia de que alguém precisa dar conta de tudo sozinho.

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Sobrecarga não pede só descanso, pede elaboração.