Sustentar tudo também é uma forma de adoecer em silêncio
Eu sei como é a sensação de precisar sustentar tudo.
Sustentar o trabalho, as decisões, as pessoas e os resultados, ao mesmo tempo em que lida com expectativas externas, cobranças internas, tentando manter a imagem de quem é forte, disponível e competente o tempo todo, mesmo quando o corpo começa a pedir pausas cada vez mais frequentes e a mente já não consegue acompanhar o ritmo (insano) que foi imposto.
Durante muito tempo aprendemos a chamar essa cobrança extrema de força, comprometimento e responsabilidade, já que em muitos contextos profissionais, especialmente em posições de liderança, sustentar tudo virou quase um pré-requisito para ser reconhecida como capaz. Assim como aprendemos que parar, revisar ou pedir apoio pode ser interpretado como falha, fragilidade ou falta de preparo.
O que raramente é dito é que esse modo de funcionamento tem um custo mental e emocional significativo, mesmo que silencioso. A literatura relacionada à psicologia do trabalho é consistente ao mostrar que a exposição prolongada a altos níveis de exigência, associada à baixa possibilidade de pausa, autonomia ou apoio, aumenta significativamente o risco de adoecimento emocional, mesmo em pessoas altamente competentes e engajadas. Evidências mostram que o adoecimento emocional dificilmente surge de forma abrupta; ele se constrói de maneira gradual, quando o excesso se transforma em rotina, quando o cansaço é normalizado e quando os sinais do corpo passam a ser ignorados em nome da entrega e da performance.
O burnout não nasce de um dia difícil ou de um período pontual de maior demanda. Estudos apontam que ele se desenvolve a partir de um processo contínuo de estresse crônico relacionado ao trabalho, especialmente em contextos nos quais há sobrecarga emocional, responsabilização excessiva e dificuldade de estabelecer limites claros entre o que é possível sustentar e o que ultrapassa os próprios recursos internos.
Os sintomas iniciais costumam ser sutis: irritabilidade frequente, dificuldade de concentração, alterações no sono, sensação de esgotamento que não se resolve com descanso ocasional e um distanciamento emocional progressivo do trabalho e das pessoas.
Ainda assim, muitas mulheres seguem funcionando, entregando e sustentando, porque aprenderam a atravessar o próprio limite como estratégia de sobrevivência pessoal e profissional. Pesquisas mostram que mulheres em posições de liderança tendem a assumir maior carga emocional, maior senso de responsabilidade pelo coletivo e maior dificuldade em delegar ou reconhecer exaustão, justamente por estarem inseridas em contextos que exigem constante prova de competência e disponibilidade. Esse peso, porém, raramente se encerra no espaço de trabalho.
Quando o expediente termina, muitas seguem sustentando: a organização da casa, o cuidado com filhos, o acompanhamento emocional da família, as demandas invisíveis que mantêm a vida funcionando e que dificilmente entram na conta quando se fala em produtividade ou desempenho. Existe um segundo turno silencioso que começa justamente quando o primeiro termina, e que consome energia psíquica, tempo e presença, mesmo quando ninguém está olhando. Por fora, tudo pode parecer seguir bem; por dentro, a sensação é de estar sempre em débito e atrasada consigo mesma, mesmo fazendo mais do que seria possível sustentar a longo prazo.
Reconhecer esse processo não é desistir nem abandonar responsabilidades, pelo contrário, é um gesto de lucidez e cuidado. Estudos mostram que a capacidade de reconhecer sinais precoces de esgotamento está diretamente associada à prevenção de quadros mais graves de adoecimento emocional e ao aumento da sustentabilidade do trabalho ao longo do tempo.
Existe uma diferença importante entre compromisso e auto abandono, entre responsabilidade e sobrecarga crônica e entre força e rigidez. Cuidar da saúde mental não é um recurso a ser acionado apenas em momentos de crise, mas uma estratégia fundamental para sustentar decisões, relações e trajetórias profissionais de forma mais sustentável e possível.
Prevenir o adoecimento emocional passa por aprender a escutar o corpo antes que ele precise gritar, por revisar rotinas, expectativas e formas de organização do trabalho e, sobretudo, por construir ambientes em que o cuidado não seja entendido como privilégio ou concessão, mas como parte da própria estrutura de funcionamento.
Na Síncrona, trabalhamos junto a empresas e lideranças a partir dessa perspectiva, com foco na prevenção do burnout, no manejo da ansiedade e na construção de rotinas mais saudáveis, baseadas em evidências e alinhadas à realidade de quem lida com tamanha sobrecarga.
Ninguém deveria precisar adoecer em silêncio para provar que é competente, e sustentar tudo sozinha não pode ser a única forma de seguir em frente.

